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14/02/2011

Depoimento Borderline - O TPB não é uma Doença!

Da série: Comentários que Merecem Destaque
Comentário feito nessa postagem aqui.

Concordo plenamente com você Wally.
Eu costumo dizer que os borders são pessoas especiais, que precisam de um estilo de vida especial, bem como os deficientes. Não somos doentes de fato, o que temos na verdade é uma desorganização mental que reflete na nossa personalidade, que é anormal e desajustada.

TRANSTORNO = BAGUNÇA, DESORDEM, DESORGANIZAÇÃO.

Portanto não temos mesmo uma doença, apenas temos uma personalidade diferente das demais, como se fosse um design defeituoso de um produto padronizado. E somos desajustados porque nosso comportamento é fora dos padrões comportamentais da sociedade. 

Não sei se você já sabia disso Wally, mas existem borderlines em vários graus ou estágios: leve, moderado ou grave. Não sei qual é o seu grau do transtorno, mas você me parece muito bem e bastante controlada (calma).

Quanto à cura, eu não acredito que ela exista de fato, pois a personalidade é algo que nasce com a gente e é imutável (todo psicólogo ou psiquiatra diz isso, meus professores da faculdade de RH eram quase todos psicólogos e sempre faziam essa afirmação).
personalidade não tem cura, embora possa ser moldada. 

Os nossos instintos violentos e manipulativos continuam dentro de nós intactos, o que acontece é que não deixamos que eles controlem a nossa mente.

E é por essa razão que não acredito na cura, porém eu acredito que exista o CONTROLE, isso sim. Controle não só com remédios, mas também o AUTOCONTROLE. Eu tomo sertralina 100mg, é claro que às vezes tenho vontade de esfaquear um, mesmo tomando remédio, mas nessa hora eu apelo pra minha razão e não pra minha emoção. 

Se eu for seguir a minha emoção, não sobra ninguém vivo perto de mim, porque sempre tem alguém que me irrita. Mas o autocontrole é justamente isso: ouvir a razão e não a emocão. Porque se você ouve a razão, então você consegue medir e prever quais serão as possíveis consequências dos seus atos e palavras ditas. 

E é isso o que eu exercito todos os dias, é uma tarefa árdua pra qualquer borderline, mas é melhor agir assim, se policiando o tempo todo, do que dar vazão aos nossos instintos e sermos vistos como loucos ou monstros cruéis e sermos excluídos do convívio social, como acontece com tantos borderlines que acabaram internados em sanatórios (sim, as clínicas psiquiátricas estão cheias de gente com o mesmo problema que nós). 

Uma vez li um artigo acadêmico onde os psiquiatras fizeram um estudo  sobre a  personalidade  borderline 
e constataram que muitos borderlines estão internados em clínicas e precocemente aposentados por invalidez.

Grande abraço Wally.
Liliane

6 comentários:

Hamires Cristine disse...

Nossa. Ela disse tudo - ou quase.

Sabe, eu não sei dizer como é o meu caso, porque eu já tive momentos de estar praticamente enlouquecendo. Não era simplesmente a angústia, os sentimentos. Eu era incapaz de fazer qualquer coisa. Incapaz de sair de dentro das minhas próprias emoções, como uma bolha que se formava. É como digo no meu poema - ou tentativa de - "Linha de Borda": uma masmorra com grades de vento. E eu tive - e tenho ainda, em momentos de muita angústia -, sintomas neuróticos seríssimos, daquele tipo que quase pula para a psicose, com delírios que você não acredita com a razão, mas é simplesmente real pra você.

Pensar que eu me transportava por duas - ou mais - realidades paralelas. Temer o tempo todo que aparecesse alguém dos lugares mais inusitados. Deixar de me sentir real. Acreditar que estou vivendo um sonho, ou uma lembrança, ou uma alucinação. E por aí vai. Fora as imagens assustadoras que costumavam surgir em minha mente sem qualquer estímulo. Daria pra encher uma galeria com coisas fascinantemente bizarras se eu soubesse pintar.

É provável que uma parte disso seja alguma outra tendência minha em se tratando de transtornos, visto que quem tem um geralmente tem mais alguns. Mas, pelo desenrolar da minha recuperação, e tudo o que aprendi na terapia, todas essas coisas absurdas se manifestavam dentro de mim porque eu não entendia e não conseguia lidar com minha intensidade.

Dia desses, minha psicóloga sugeriu que eu assistisse o filme Cisne Negro - eu não escrevo mais no blog sobre Borderline, mas fica aqui minha sugestão para que você, Wally, assista ao filme e escreva um post fazendo as associações cabíveis.

O filme é com a Natalye Portman e ainda está no cinema. Mas vou concluir o que eu queria dizer.

Dentre outras coisas, o filme me mostrou de uma forma bem didática e dolorosa o quanto é difícil juntar o nossa luz com nossa sombra, e que ser tomada por qualquer uma delas isoladamente só pode dar em merda.

Enfim... Fui bem longe no comentário. Rs. Eu só queria dizer que eu me considero uma Borderline de 'grau' moderado a grave bem adiantada em minha recuperação. Ainda tenho dificuldades no convívio social - realmente não sei se esses processos por que passo em publico são Border, mas a intensidade age em cima deste processo também -, e estou agora começando a realmente por o pé lá fora e enfrentar os meus fantasmas. Custe o que custar, eu aprenderei a conviver com o mundo.

É como quando que resolvi que pior não podia ficar, então era melhor eu ter esperanças e me empenhar em melhorar, pois, mesmo que eu não conseguisse, tudo bem, pois eu já estava acostumada a ser um peso pseudo-morto que reagia a cada singelo toque de pena. O bom é que deu certo. Eu me empenhei tanto que estou hoje já colocando em foco o mundo lá fora, quando, até hoje, o foco da terapia só conseguia ficar no meu caos particular.

Então, agora, com a mesma determinação e coragem de enfiar em mim a própria coragem que não existe, eu ponho meus pés no mundo.

O método que desenvolvi para meu autocontrole foi me escrever. Personagens de 'alter-ego', poesia, devaneios acerca do que me toca tão intensamente - ou seja, TUDO. Assim, eu libero a enorme energia mental e emocional de uma forma que não prejudique nem a mim, nem aos outros.

Desculpa aí pelo comentário de extensão absurda. Rs. Um beijo! E não esqueça do filme. Vale à pena!

Anônimo disse...

Eu não sei quanto a vocês mas eu não fico só na parte da irritação.

Em determinados momentos, fico muito confusa, precisando da opiniões dos outros sobre as minhas múltiplas idéias de fazer um curso assim, outro assado. Lógico que quando me falam pra fazer 1 eu já mudo e penso em fazer outro, ou os dois e antes mesmo de começar qquer um eu já mudei de idéia e quero fazer um 3 ou estou tão sem vontade de nada que já não tenho vontade nem de pensar.

A instabilidade é com relação a tantas e tantas coisas que chega a levar a exaustão.

Eu, pelo menos, pareço ficar numa busca frenética a algo que nem sei o que é.

Quando não estou fazendo nada, me dá um vazio absurdo. Quando estou fazendo algo (quando consigo), me "satisfaço" por pouquissimo tempo e logo não me sinto bem com aquilo e passo a "buscar" outras coisas. Por isso, muitas vezes, não consigo nem ler um livro, ou ver um filme.

A não ser filmes como o que a Hamires citou "Cisne Negro", que é tão profundo e esquisito que parece um espelho. Daí mergulho, vejo 500 vezes se possível e depois passo mal, fico deprimida, minha angústia vai a mil, choro por dias.

Acho que o autocontrole é importante quanto a irritabilidade mas acho mais. Acho que é necessário um autoconhecimento pra ter esse autocontrole e a irritabilidade é apenas um pedacinho de nós, borders. Temos, como descrevi acima, tantos sintomas, que dá até pra perder a conta. Como controlar tudo isso? Primeiro é preciso perceber que eles acontecem. Depois, quando e como. E, finalmente, como domá-los.

Não é nada simples. Porque é exatamente como o chute que vem do martelinho batendo no joelho. É incontrolável. É reflexo. É um treino. É árduo. E não dá pra esquecer que tem uma sociedade inteira, um mundo inteiro dizendo que somos errados, esquisitos, tortos ... como se já não bastasse nós mesmos nos maltratando 25 horas dia e noite.

Sinceramente, eu ainda tento entender o porquê de ter um transtorno desses?

Beijos
maria roberta

Begônia disse...

Você ainda tem esse artigo acadêmico? Gostaria de ler também.

Abraços.

Anônimo disse...

Olá, eu sou autora do depoimento postado pela Wally acima, o artigo acadêmico que fala sobre a situação dos borderlines está nesse link aqui:

http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/8461

Um trecho desse artigo é bastante claro quanto à situação de muitos deles:

" Os casos estavam bastante incapacitados funcionalmente: 69.3% desempregados, afastados há 19 ± 20.7 meses do trabalho e 11.3% precocemente aposentados por doença."

Espero que eu tenha respondido a tempo o comentário acima, já que faz um certo tempinho que a leitora postou...

Abraços.

Wally disse...

Muito obrigada pelo retorno, Liliane.
Grande beijo e abraço!!

MsPsychodelic disse...

"Os nossos instintos violentos e manipulativos continuam dentro de nós intactos, o que acontece é que não deixamos que eles controlem a nossa mente."

É bem verdade. Já não tenho comportamentos psicóticos há muito tempo. E quando tive foi hardcore. A ansiedade acho que é o mais difícil de controlar. É ir controlando os pensamentos, sempre, todos os dias. É complicado e cansativo, mas tem que ser feito. Bem melhor que virar psycho.

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