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09/07/2013

Medicalização - A Mordaça das Inquietações Humanas

por Liége Lise (psicanalista)

Uma nota divulgada pela Anvisa em fevereiro deste ano aponta um crescimento de 75% no consumo do medicamento cloridrato de metilfenidato, mais conhecido como Ritalina, em crianças com idade de 6 a 16 anos, entre 2009 e 2011, no Brasil. 

A medicação é utilizada no tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). O diagnóstico de hiperatividade ou déficit de atenção é dado a partir dos seguintes sintomas: 

a criança apresenta dificuldade em prestar atenção na aula, desinteresse pelo que está sendo falado pelo adulto, falta de foco e concentração para desempenhar a atividade proposta, sinais de ansiedade para falar, esquecimento, dificuldade em manter-se sentada e tendência a “sonhar acordada”.

Antes de rotular a criança como hiperativa ou desatenta e oferecer, como única alternativa, algum medicamento, caberiam algumas reflexões: cabe ao médico a tarefa de estabelecer o que seria um padrão de normalidade e normatizar os comportamentos de ensino-aprendizagem da criança? 

Dada as profundas mudanças causadas pela revolução tecnológica, a escola não precisaria rever sua função, promover mudanças na sua prática de ensino e na concepção do que é educar para um novo mundo? 

Não estaríamos transformando em patologia questões culturais que pedem mudança de postura e, ao medicarmos as dores humanas, nos eximindo de responsabilidade diante dos novos desafios na educação dos filhos?

Do contrário estaremos agindo como naquela história em que foram vestir o santo, mas, como a roupa havia sido lavada, encolheu e ficou curta. Então, a solução encontrada foi serrar as pernas do santo. 

No caso do TDAH, precisamos compreender o porquê desse crescimento significativo entre as crianças e questionarmos se a medicação, no caso a Ritalina, - a conhecida droga da obediência -, deve ser a principal forma de tratamento.

Uma das maiores referências médicas no tratamento de TDAH, o Dr. Ned Hallowell, psiquiatra infantil e autor de livros best-seller no assunto, mostra-se preocupado com o crescimento alarmante do diagnóstico da doença entre as crianças em idade escolar nos Estados Unidos. 

Em recente matéria publicada no jornal The New York Times, afirmou: “Agora é o momento de chamar a atenção para os perigos que podem estar associados a diagnósticos feitos de forma descuidada. Nós temos crianças lá fora usando essas drogas como anabolizantes mentais – o que é perigoso, eu odeio pensar que desempenhei um papel na criação desse problema”.

Escutar e observar o que cada criança quer dizer, através de seu comportamento tido como desajustado, é não silenciar os conflitos inerentes a construção da vida. É um convite a lidarmos com nossas angústias de forma criativa. 

Do contrário, estamos reduzindo temas humanos a questões biológicas e orgânicas e, transformando em doença nossas expressões subjetivas e existenciais. 
fonte: IPLA

23/05/2013

O Cavalo & O Inconsciente


Em 1904, o alemão Wilhelm von Oster ficou famoso por suas apresentações com Hans - um cavalo que era capaz de "quase tudo, menos falar". 

Segundo o dono, Hans fazia cálculos matemáticos complexos. 
Quando perguntavam a raiz quadrada de quatro, o bicho respondia batendo o casco duas vezes no chão. 

A conexão era tanta que Hans acertava o resultado mesmo quando seu mestre não fazia as perguntas em voz alta - e apenas pensava nelas. Havia quem jurasse de pés juntos que o cavalo lia a mente de Von Oster. 

A dupla rodou a Alemanha em apresentações fantásticas, e deixou estudiosos debruçados sobre o mistério durante anos. Em 1907, o psicólogo Oskar Pfungst publicou um estudo que solucionava a charada. Hans só acertava os resultados quando seu entrevistador (no caso, Von Oster) já sabia a resposta certa. 

Pfungst descobriu um padrão: Von Oster se inclinava levemente para frente quando terminava de propor uma questão. Esse era o sinal. Hans entendia e começava a bater o casco no chão. Quando atingia o número certo de batidas, algum outro movimento do dono denunciava a hora de parar. Von Oster era um charlatão, então? 

Talvez. Mas muitas outras pessoas, que não sabiam de nada, desafiaram Hans com problemas matemáticos. O cavalo acertou todos. É que elas, sem saber, também coordenavam com movimentos inconscientes as respostas dele. 

Ou seja: cavalos talvez não saibam fazer contas, mas podem ser capazes de ler o inconsciente alheio com mais precisão do que muito humano.

Ainda não existe uma fórmula que permita controlar o que dizemos de forma inconsciente. Emitimos sinais inconscientes o tempo todo - a ponto de sermos transparentes até para cavalos. É por isso que é tão difícil fingir: todo mundo percebe quando achamos que uma festa está meio chata, por exemplo. Mas não vá culpar o seu inconsciente por isso. Se não fosse ele, você sequer conseguiria dançar e conversar ao mesmo tempo.
(ref: Super Interessante fev/2013)

22/05/2013

O Poder do Incentivo Inconsciente

Você é o produto das situações que vive. Mas também sofre uma influência que vem de dentro - e é tão potente quanto elas. 

O inconsciente pode ser fonte de angústias - e também de algumas injustiças, cujos efeitos são perceptíveis desde a infância. 

O queridinho do professor, provavelmente, será o aluno com as melhores notas da classe. Não porque ele seja necessariamente o melhor, mas porque os professores acreditam que seja - e acabam atuando inconscientemente a favor dele. 

Esse fenômeno, que se chama incentivo inconsciente, tem respaldo em diversos estudos científicos. Um dos mais engenhosos (e mais polêmicos também) foi conduzido na década de 1960 por Robert Rosenthal, hoje um octogenário professor de psicologia da Universidade da Califórnia.

Na experiência, os alunos de uma escola americana foram submetidos a uma prova. Rosenthal e sua equipe disseram aos 18 educadores do colégio que se tratava de um teste especial, desenvolvido na Universidade Harvard para analisar o potencial de desenvolvimento de cada criança. 

Mentira. Era apenas um reles teste de QI, sem nada de especial. O objetivo da lorota era aumentar as expectativas dos professores. Os alunos fizeram a prova, e a grande sacada de Rosenthal veio na hora de anunciar o resultado. Antes mesmo de calcular a pontuação de cada aluno, os pesquisadores escolheram aleatoriamente três a seis crianças de cada série e disseram aos professores que aqueles alunos haviam se destacado e teriam um desempenho extraordinário nos anos seguintes. Era outra mentira.

No final do ano escolar, a equipe de Rosenthal voltou à escola e repetiu o teste. Os alunos que haviam sido falsamente diagnosticados como gênios haviam ganho, em média, 3,8 pontos de QI a mais que os demais. O resultado foi ainda mais surpreendente entre alunos da primeira série: a diferença entre os ungidos e o resto foi de assombrosos 15,4 pontos de QI a mais. 

Ou seja: as crianças que haviam sido apresentadas como mais inteligentes de fato se tornaram mais inteligentes - porque inconscientemente, sem querer, os professores haviam dado mais atenção e estímulo a elas.  

"O resultado mais importante desse experimento foi mostrar como a expectativa dos professores faz toda a diferença para o desenvolvimento dos alunos", analisa Rosenthal. É impossível ser completamente justo e imune a esse tipo de influência, mas existe um antídoto eficaz contra as distorções induzidas pelo inconsciente: saber que ele sempre está pronto para nos enganar.
(ref: Super Interessante Fev / 2013)

"O homem que foi o favorito de sua mãe 
mantém por toda a vida a sensação de conquistador 
e a confiança no sucesso, 
a qual muitas vezes induz ao sucesso real." 
(Sigmund Freud)


Neurociência Admite: Freud Tinha Razão!


A neurociência nunca deu muita bola para a psicanálise. Mas os novos estudos sobre inconsciente trazem comprovação para um conceito central dela. 

Uma experiência liderada pelo psiquiatra Eric Kandel, que ganhou o prêmio Nobel de Medicina de 2000 por estudos sobre neurotransmissores, mostra como o inconsciente pode funcionar como amplificador das emoções. Antes da experiência, os voluntários preencheram questionários que mediam seus níveis de ansiedade. 

Depois, enquanto seu cérebro era monitorado pelos cientistas, cada voluntário via uma série de rostos com expressões de medo. Foram duas sessões. Na primeira, as fotos passavam bem devagar, com tempo suficiente para o voluntário analisar os detalhes de cada uma. 

Na segunda, as imagens passavam tão rápido que os voluntários não conseguiam identificar nada - não tinham nem certeza de ter visto um rosto ou qualquer outra coisa. A intenção de Kandel e seus colegas era provocar emoções conscientes e inconscientes. 

Quando a foto ficava por um bom tempo na tela, o voluntário tinha tempo de perceber conscientemente a expressão de medo da imagem. No outro experimento, era tudo tão rápido que não era possível ter uma reação consciente. 

Essas imagens rápidas estimulavam diretamente o inconsciente, e provocavam atividade muito alta no núcleo basolateral da amídala cerebral - área ligada às sensações de medo. Já as imagens lentas, que eram interpretadas de forma consciente, não geravam nenhuma atividade nessa área. Quanto mais ansiosa a pessoa era, maior a diferença entre a interpretação consciente e inconsciente da mesma coisa (as imagens). 

Para Kandel, o estudo é a comprovação neurocientífica de uma teoria central da psicanálise: a interpretação inconsciente de coisas negativas é a fonte de muitas das aflições humanas. 

Freud tinha razão!
(ref: Super Interessante Fev / 2013)

17/05/2013

Esse Obscuro Objeto Do Desejo - Filme Completo

SINOPSE: Logo após Mathieu (Fernando Rey) entrar em um trem, ele joga um balde de água numa bela jovem que estava na plataforma, causando uma grande surpresa nos demais passageiros. 

Ele resolve explicar a razão do seu ato e lhes conta que ficou obcecado por Conchita (Carole Bouquet). 

Começa então um jogo de gato e rato no qual Mathieu, um homem rico e sofisticado que está entrando na 3ª idade, tenta obsessivamente ganhar os afetos desta jovem de 18 anos. 

Enquanto ela manipula-lhe o desejo carnal, cada um, tenta por sua vez, ganhar absoluto controle sobre o outro.
Classificação Indicativa: 16 anos

13/05/2013

Transtorno de Estress Pós Traumático - Estudo


Por: André Lacerda - Psicanalista
Clínica Psicanalítica Ltda-
Rua dos Andradas 904 - conj 33 P.Alegre


O Transtorno de Estress Pós Traumático ou TEPT é uma reação do organismo parecida com a Síndrome do Pânico, porém com uma característica importante:

É uma reação a acontecimento inesperado, ameaçador, imprevisível e traumático, por exemplo:

Combate, seqüestro, prisão, assalto, estupro, acidente, agressão física ou moral, etc.

Um diagnóstico preocupante, um resultado de exame de laboratório que indique doença grave, uma cirurgia difícil, um pós operatório complicado, uma perda financeira ou afetiva, incêndio, inundação, terremoto, combate.

Também pode desenvolver quando a pessoa testemunha ou fica sabendo de uma experiência semelhante que ocorreu com outra pessoa de sua família ou de seu relacionamento.

Sintomas do Estresse pós Traumático:

(Taquicardia, sudorese, falta de ar, tremor, fraqueza nas pernas, ondas de frio ou de calor, tontura, sensação de que o ambiente esta estranho, de que vai desmaiar, de que vai ter um infarto, de uma pressão na cabeça, de que vai "ficar louco", de que vai engasgar com alimentos, assim como crises noturnas de acordar sobressaltado com o coração disparando e com sudorese intensa, diarréias, sintomas de uma Labirintite, pensamentos que não saem da cabeça de que poderiam ter doenças graves mesmo que todos os exames sejam normais ou de que poderiam fazer mal a si mesmo ou a outras pessoas)

mais:
Pesadelos e terrores noturnos relacionados com o evento traumático.
Flash Backs (a pessoa tem a sensação de estar vendo ou vivenciando a mesma situação, como uma cena de filme).

Com o passar do tempo, o paciente de Stress pós Traumático ou TEPT desenvolve um estado depressivo crônico com apatia, irritabilidade, desinteresse, diminuição de memória e culpa.

Algo que lembra a situação desencadeante pode causar ataques de ansiedade.

A pessoa passa a evitar situações que possam lembrar o evento que provocou o Stress pós Traumático.
Diminuição de rendimento escolar e profissional
Isolamento social.
Desesperança com relação a planos de vida de antes do evento traumático.

O que é?

O transtorno de estresse pós-traumático pode ser entendido como a perturbação psíquica decorrente e relacionada a um evento fortemente ameaçador ao próprio paciente ou sendo este apenas testemunha da tragédia.

O transtorno consiste num tipo de recordação que é melhor definido como revivescência pois é muito mais forte que uma simples recordação. Na revivescência além de recordar as imagens o paciente sente como se estivesse vivendo novamente a tragédia com todo o sofrimento que ela causou originalmente. O transtorno então é a recorrência do sofrimento original de um trauma, que além do próprio sofrimento é desencadeante também de alterações neurofisiológicas e mentais.

Diagnóstico

O primeiro aspecto a ser definido é a existência de um evento traumatizante. Aquele suficientemente marcante, não há dúvidas quanto a ser ameaçador à vida ou à integridade individual, como os seqüestros, assaltos violentos, estupros.

Há, contudo certos eventos que podem não ser considerados graves como um acidente de carro sem vítimas. Mesmo assim caso uma pessoa venha a apresentar o quadro de estresse pós-traumático perante uma situação que poderia não ser considerada forte o suficiente para causar danos à maioria das pessoas, pode causar danos para outras.

Com certeza, um evento marcante, fora da rotina, que de alguma forma represente uma ameaça, tem que ter acontecido: sem isso não será possível fazer o diagnóstico, pois a definição dele envolve o evento externo.

Os sintomas têm que estar diretamente relacionados ao evento estressante, as imagens, as recordações e as revivescência têm que ser a respeito do ocorrido e não sobre outros fatos quaisquer ainda que ameaçadores.

Para o diagnóstico é essencial que a pessoa tenha experimentado ou testemunhado um evento traumatizante ou gravemente ameaçador.

Quando esse evento ocorre, é necessário também que a pessoa tenha apresentado uma resposta marcante de medo, desesperança ou horror imediatamente após o evento traumático. Depois disso o indivíduo deve passar a ter recordações vivas, intrusivas (involuntárias e abruptas) do evento, incluindo a recordação do que pensou, sentiu ou percebeu enquanto vivia o evento traumático.

Podem ocorrer pesadelos baseados no tema. Sentir como se o evento fosse acontecer de novo, chegando a comportar-se como se estivesse de fato vivendo de novo o evento traumático. Nesses eventos é possível que o paciente tenha flashbacks ou alucinações com as imagens do evento traumático.

As situações que lembram o evento causam intenso sofrimento e são evitadas. Ter de expor-se novamente ao local pode ser insuportável para o paciente. Por isso o paciente passa a evitar os assuntos que lembrem o evento, como também as conversas, pessoas, objetos e sensações, tudo que se relacione ao trauma.

A recordação dos aspectos essenciais do trauma pode também ser apagada da memória. A pessoa pode afastar-se do convívio social e outras atividades mesmo que não relacionadas ao evento. Pode passar a sentir-se diferente das outras pessoas.

Pode passar a ter dificuldade de sentir determinadas emoções, como se houvesse um embotamento geral dos afetos. Pode passar a encarar as coisas com uma perspectiva de futuro mais restrita, passando a viver como se fosse morrer dentro de poucos anos, sem que exista nenhum motivo para isso.

Outros sintomas podem ser também: insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração, respostas exageradas a estímulos normais ou banais.

Para se fazer o diagnóstico é preciso que esses sintomas estejam presentes por no mínimo um mês. Caso o tempo seja inferior a isso não significa que a pessoa não teve nada, só não se pode dar esse diagnóstico.

Certos sintomas não compõem o diagnóstico, mas podem ser encontrados no paciente com estresse pós-traumático como dor de cabeça, problemas gastrintestinais, problemas imunológicos, tonteiras, dores no peito, desconfortos.

Considerações

O transtorno de estresse pós-traumático é provavelmente um transtorno muito comum, porém pouco conhecido, como nas décadas passadas foram desconhecidos porém freqüentes os transtornos de pânico, fobia social, obsessivo compulsivo.

O estresse pós-traumático se diferencia dos demais transtornos de ansiedade e da maioria dos transtornos mentais por ser causado a partir de um fator externo.

O aparato mental do homem é capaz de lidar com situações estressantes sem que isso deixe cicatrizes, da mesma forma que os vasos sanguíneos são capazes de suportar elevações da pressão arterial durante o exercício físico normalmente.

Há, contudo limites a partir dos quais o funcionamento mental fica perturbado. Provavelmente isso ocorre quando os mecanismos de enfrentamento e suporte contra estresse são fracos ou quando os estímulos são fortes demais.

Quando surgirá o transtorno não podemos saber, o fato de uma pessoa ter passado por um trauma não significa necessariamente que ela terá estresse pós-traumático.

Observa-se que num mesmo evento, algumas pessoas podem apresentar esse transtorno e outras não. Essas variações nos levam a julgar que existem também predisposições pessoais a este problema, o que de fato tem sido constatado.

Pessoas com outros problemas de ansiedade prévios apresentam maior susceptibilidade a desenvolverem o estresse pós-traumático.

Grupo de Risco e Curso

Qualquer pessoa pode desenvolver estresse pós-traumático, desde uma criança até um ancião. Os sintomas não surgem necessariamente logo após o evento, podem levar meses. O intervalo mais comum entre evento traumatizante e o início dos sintomas são três meses. Muitas pessoas se recuperam dos sintomas em seis meses aproximadamente, outras podem ficar com os sintomas durante anos.

Transtorno de estresse pós-traumático: uma neurose de guerra em tempos de paz

Como compreender e tratar pacientes que foram vítimas de episódios violentos, como estupro, assalto, seqüestro? Quais as conseqüências psicológicas desses eventos?

Vejamos a visão psicanalítica sobre o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), já reconhecido internacionalmente como doença.

Trata-se de um tema que foi historicamente importante para o desenvolvimento da Psicanálise, pois se percebeu que os sintomas apresentados pelos pacientes que sofriam de neurose traumática não podiam ser explicados pela teoria usual, ou seja, como uma manifestação simbólica de algum conflito inconsciente.

Apesar disso, o TEPT parece ter sido deixado de lado com o tempo. Preocupados com a responsabilidade do profissional de saúde em uma realidade em que a violência se faz cada vez mais presente e muito se debate o funcionamento mental do criminoso, mas se deixa de lado as conseqüências na psique da vítima, os autores oferecem compreensões teóricas e propostas de intervenção.

Devemos num primeiro momento rever a descrição do transtorno e, considerando a definição da CID-10 como vaga demais, explicar fatores como a experiência (resultante do evento factual que não é elaborado e da vivência) e também quais episódios da realidade poderiam ter maior capacidade traumática.

Pode-se começar vislumbrando a origem do TEPT na frustração libidinal associada a uma situação de perigo, de maneira que uma situação pode tornar-se um trauma quando o perigo presente nela excede as capacidades individuais de enfrentá-lo.

Em relação aos sintomas, detalhamos os critérios do DSM-IV, visto como mais específico se comparado com a CID-10, tomando o cuidado de diferenciar o TEPT do Transtorno Dissociativo.

Já em relação à prevalência, existem pesquisas que indicam que quantidades significativas de pessoas não conseguem se restabelecer por conta própria após alguns meses do evento, considerando cinco fases de resposta ao trauma.

Em casos crônicos, o TEPT pode permanecer por muitos anos, especialmente quando o episódio violento foi provocado por humanos, fazendo o indivíduo remodelar sua vida de maneira a evitar situações perigosas.

Importante, apresentar e discutir outros transtornos associados ao TEPT e como se dá a comorbidade.

Com relação as bases biológicas do transtorno de estresse pós-traumático, visando a uma interação entre estruturas teóricas diferentes, podemos verificar o transtorno como uma falha do organismo em se recuperar de eventos marcantes.

Entre os neurotransmissores importantes no quadro, destacamos o cortisol, um mediador da resposta de estresse, que possui relação com as memórias intensas e inapropriadas do episódio.

Como o cortisol se apresenta em quantidade reduzida em pacientes com TEPT, aventa-se a possibilidade de se prever o desenvolvimento do transtorno no período imediatamente após o evento estressor.

Abordando a metapsicologia do trauma, propõe-se uma teorização da ação do trauma no aparelho psíquico, segundo Freud e Ferenczi, apresentando evidências de uma teoria inconsciente sobre o paciente e as causas das dores, diferente da Medicina.

Visando a descobrir como a psique lida com quantidades excessivas de estimulações, vamos rever os subsistemas j, y e w, sua função e diferenciação, e como eles agem com a distribuição de energia no trabalho psíquico.

Propõe-se que o TEPT apareça como uma repetição compulsiva da dor de quando a vítima se sentiu abandonada e impotente perante uma ameaça a sua vida, o que sugere que o trauma seja uma ferida egóica que provoca um distúrbio narcísico.

Intensificando a questão crucial (psíquica) avocamos no estudo a fixação no trauma e a teoria da libido, retoma-se o conceito de pulsão de morte e compulsão à repetição na teoria freudiana.

Propõe-se que o trauma apareça por causa de um excesso de estimulação e incapacidade do aparelho psíquico em se livrar dela, surgindo uma angústia semelhante à do nascimento.

A fixação no trauma, assim, se daria como uma busca por uma nova experiência que proporcionasse uma descarga adequada.

A concepção psicanalítica de neurose e o TEPT, relembra que o transtorno surge a partir de um momento único e com sintomas não simbólicos, ao contrário das outras neuroses, onde trazemos o conceito de Neurose Traumática proposto por Freud.

Após uma detalhada revisão histórica da obra freudiana sobre o tema, explica-se como o TEPT surge devido a três alterações no aparelho psíquico: inicialmente uma falha na descarga da excitação, surgindo, por diversos fatores, a compulsão à repetição e, por fim, falhas nas defesas.

07/05/2013

Desmistificando a Hipnose - Un Enfoque Psicanalítico


por Lindalva Moraes
psicanalista
 
Este tema é tão rico e tão deturpado ao mesmo tempo! 
Em torno dele há: muita imaginação, misticismo, falsas crenças, ilusão, mas há também uma importante ferramenta de programação neurolinguística, que pode se mostrar bastante eficaz, se, utilizada por profissionais capacitados e com propósito terapêutico.

Na verdade a Hipnose é tão somente “sugestionar” ao subconsciente o que se deseja. Torna-se um pouco mais complexo porque para isto, é necessário, “driblar” a vigilância do consciente, através de concentração e determinação.

Antes de continuar, é necessário esclarecer algumas dúvidas que ouço com frequência:

- não é 100% da população que é suscetível à hipnose, em média 30% das pessoas não estão propensas a ela, isto varia de acordo com o grau de sensibilidade, ansiedade, conhecimento do procedimento, etc;

- ninguém “revela” o que não deseja sob hipnose. O subconsciente não possui comunicação própria, no entanto, é dono de inteligência suprema e monitora tudo o que se passa;

- a hipnose não “apaga” lembranças, ela pode oferecer uma nova percepção ao indivíduo com relação a elas;

- o temido “transe hipnótico” nada mais é que alto grau de concentração do indivíduo em função de um propósito. Portanto, ele próprio pode decidir interromper o exercício quando desejar, ele apenas acredita “momentaneamente” (porque faz parte do exercício) que está sob sugestão incondicional do terapeuta, mas o controle está com ele o tempo todo.

Certa vez, alguém me pediu para “plantar” algumas idéias repletas de positivismo em seu subconsciente, com isto, ele passaria a ser “outra pessoa”. 

Veja bem, se ele próprio me listou o que gostaria de ter em mente, significa que já está lá, veio dele, não é de origem externa.

A hipnoterapia, que parte dos preceitos psicanalíticos, não “muda” pessoas como mágica, nem tão quanto “inventa” atributos que ela não tenha. Ela trabalha com material já existente, ressaltando o que há de bom, apaziguando o que há de ruim e também desenvolve o que precisa ser criado, mas de maneira “artesanal”, da ordem do inconsciente para o consciente, com calma e lucidez e não como ilusão.

Muitas vezes os problemas e a incidência das dificuldades para resolvê-los nos fazem acreditar que há atalhos possíveis, soluções fictícias, fáceis e indolores, mas isto é fuga, é negação ao enfrentamento das situações como deve ser.

A função da hipnose, bem como de tantas outras ferramentas terapêuticas, é de auxiliar, agir como complemento, oferecer suporte para o tratamento de uma patologia ou de outros propósitos. Não é a solução, é apenas uma ferramenta pra ela.

06/05/2013

Sigmund Freud - Biografia


Embora Freud fosse agnóstico, a educação judaica lhe proporciona um sólido conhecimento da Bíblia, bem como a familiaridade com procedimentos e técnicas de interpretação dos textos sagrados.

Influências das Artes e Literatura 

Em suas obras Sigmund Freud cita grandes nomes da literatura universal (Sófocles, William Shakespeare, Miguel de Cervantes, Henrik Ibsen, Fiodor Dostoieski) e contemporâneos de todas as matizes (Thomas Mann, Emile Zola, Mark Twain); sobressaem os autores de língua alemã, como Heinrich Heine, Friedrich Schiller e Johann Wolfgang von Goethe (figura central no universo intelectual de Freud, e citado por ele mais de uma centena de vezes em seus escritos). Demonstra também grande interesse pela escultura (Michelangelo) e pela pintura (Leonardo da Vinci, Herman von Riju Rembrandt).

Em 1896 Freud iniciou sua célebre coleção de antiguidades, composta por mais de 2000 peças, das mais variadas procedências; que testemunha o grande interesse de Freud por civilizações antigas e pela arqueologia. 


O interesse artístico-literário de Freud se infiltra profundamente na psicanálise, e estilo freudiano de escrita e argumentação é bastante “literário”.  Loureiro (2005) relata que a prosa elegante de Freud foi admirada por muitos críticos e o único prêmio que Freud recebeu em vida, o Prêmio Goethe (1930), foi-lhe atribuído pelas qualidades literárias de sua obra.  

Sob a influência de uma amizade formada na escola com um menino mais velho, Freud desenvolveu o desejo de estudar direito e de dedicar-se a atividade sociais. Ao mesmo tempo, as teorias de Darwin atraíram-lhe a atenção, “pois ofereciam esperanças de extraordinário progresso em nossa compreensão do mundo” (Freud, 1935); e foi ouvindo o ensaio de Goethe sobre a Natureza, lido em voz alta numa conferência popular pelo professor Carl Brühl pouco antes de ter deixado a escola, que Freud resolveu tornar-me estudante de medicina. 

Ao completar a escola secundária, o jovem Freud já sabia latim, grego, hebraico, alemão, francês, inglês e tinha ainda noções de italiano e espanhol.

Formação Médica e Estudos em Fisiologia

Em 1873 ingressou na universidade de medicina, sofrendo grande preconceito por ser judeu. Entre 1876 e 1888 com breves interrupções trabalhou no laboratório de fisiologia de Ernst Brücke e seus assistentes Sigmund Exner e Ernst Fleischl von Marxow.  Recebeu seu título de doutor em 1881.

Devido a sua situação financeira desfavorável, Freud se viu impelido a abandonar a carreira de teórico ingressou no Hospital Geral como Aspirant (assistente clínico). Logo depois foi promovido a Sekundararzt (médico estagiário ou interno), e trabalhou em vários departamentos do hospital, entre outros por mais de seis meses sob a orientação de Meynert, cujo trabalho e personalidade muito lhe haviam impressionado quando ainda era estudante.

Meynert propôs que Freud devia dedicar-se inteiramente à anatomia do cérebro e prometeu passar-lhe suas atividades como conferencista, visto sentir-se velho demais para lidar com os métodos mais novos. Havia naquela época, em Viena, poucos especialistas em neurologia, o material para seu estudo estava distribuído por grande número de diferentes departamentos do hospital, não havia oportunidade satisfatória para aprender a matéria, e se era forçado a ser professor de si mesmo. (Freud, 1935)

Em 1885, foi nomeado conferencista (Dozent) de neuropatologia com base em suas publicações histológicas e clínicas. Logo depois, como resultado de caloroso testemunho de Brücke, foi concedida uma bolsa de estudos que possibilitou sua viajem para Paris para assistir às aulas de Charcot.
Aulas com Charcot 

Freud (1935) declara que no início Charcot dispensava-lhe pouca atenção; mas Charcot um dia em uma de suas aulas declarou que estava necessitando de um tradutor de alemão para suas conferências, prosseguiu dizendo que ficaria satisfeito se alguém se encarregasse de verter o novo volume de suas conferências para o alemão. Freud ofereceu-lhe seus préstimos. Charcot aceitou a oferta, foi admitido no círculo de seus conhecidos pessoais, e a partir dessa época tomou parte integral em tudo que se passava na clínica.

Antes de partir de Paris, Freud examinou com Charcot um plano para um estudo comparativo das paralisias histéricas e orgânicas. Freud desejava estabelecer a tese de que na histeria as paralisias e anestesias das várias partes do corpo se acham demarcadas de acordo com a idéia popular dos seus limites e não em conformidade com fatos anatômicos. Mas na realidade Charcot não teve qualquer interesse especial em penetrar mais profundamente nesse estudo. (Freud, 1935)

No outono de 1886, fichou-se em Viena como médico e casou-se com Martha. Cabia-lhe apresentar um relatório perante a ‘Gesellschaft der Aerzte’ (Sociedade de Medicina) sobre o que vira e aprendera com Charcot. Teve, porém, má recepção. Pessoas de autoridade declararam que o que ele disse era inacreditável. 

Meynert desafiou-lhe a encontrar alguns casos em Viena semelhantes àqueles que ele descrevera e a apresentá-los perante a sociedade. Foi excluído do laboratório de anatomia cerebral e durante intermináveis trimestres não teve onde pronunciar suas conferências; afastou-se da vida acadêmica e deixou de freqüentar as sociedades eruditas.

Josef Breuer 

Enquanto ainda trabalhava no laboratório de Brücke, Freud travara conhecimento com o Dr. Josef Breuer que era um dos médicos de família mais respeitados de Viena.

Antes da viagem de Freud a Paris, Breuer já havia lhe falado sobre um caso de histeria que, entre 1880 e 1882, ele havia tratado de maneira peculiar, o qual lhe permitira penetrar profundamente na acusação e no significado dos sintomas histéricos. Freud fez um esboço desse caso a Charcot, que não demonstrou nenhum interesse no assunto.

A paciente, que mais tarde ficou conhecida nos livros de psicanálise como Ana O. (Berta Papenheim), tinha sido uma jovem de educação e dons incomuns, que adoecera enquanto cuidava do pai, pelo qual era devotamente afeiçoada. Quando Breuer se encarregou do caso, esta apresentava um quadro variado de paralisias com contraturas, inibições e estados de confusão mental. Ela podia ser aliviada de seus sintomas se fosse induzida a expressar em palavras a fantasia emotiva pela qual se achava no momento dominada. 

A partir dessa descoberta, Breuer chegou a um novo método de tratamento. Ele a levava a uma hipnose profunda e fazia-a dizer-lhe, de cada vez, o que era lhe oprimia a mente. Esta paciente, durante o estado de transe hipnótico, recordava uma série de ocorrências traumáticas que aconteceram em um passado remoto, e das quais ela não lembrava quando em estado consciente.Por esse processo Breuer conseguiu, após longos e penosos esforços, aliviar a paciente de seus sintomas.

Freud começou então a repetir as pesquisas de Breuer com seus próprios pacientes. Após observar durante vários anos que os achados de Breuer eram invariavelmente confirmados em cada caso de histeria acessível a tal tratamento, e depois de haver acumulado considerável quantidade de material sob a forma de observações análogas às dele, Freud propôs a Breuer lançar uma publicação conjunta.

Freud (1935) diz que, no início, Breuer objetou com veemência, mas por fim cedeu, especialmente tendo em vista que, nesse meio tempo, as obras de Janet haviam previsto alguns dos seus resultados, tais como o rastreamento de sintomas histéricos em fatos da vida do paciente e sua eliminação por meio da reprodução hipnótica in statu nascendi. Em 1893 foi lançado uma comunicação preliminar, “Sobre o Mecanismo Psíquico dos Fenômenos Histéricos”, e em 1895 seguiu-se o livro, Estudos sobre a Histeria.

Entre Comunicação Preliminar e Estudos Sobre Histeria, Freud publicou o artigo As Neuropsicoses de Defesa (1894) onde já demonstra sua independência em relação às idéias de Breuer. É nesse trabalho que Freud começa a tratar de forma intensa o fenômeno da defesa; mas é importante sublinhar que ele só entende de forma profunda esse fenômeno quando abandona a hipnose e passa para o método de associação livre. Foi o conceito de defesa que rompeu de forma decisiva com a concepção neurologizante do conflito psíquico.  

Freud (1935) diz que Estudos sobre a Histeria não procurou estabelecer a natureza da histeria, mas apenas lançar luz sobre a origem de seus sintomas. Assim, dava ênfase à significação da vida das emoções e à importância de estabelecer distinção entre os atos mentais inconscientes e os conscientes (ou, antes, capazes de ser conscientes). O livro introduziu também a noção de um fator dinâmico, supondo que um sintoma surge através do represamento de um afeto, e um fator econômico, considerando aquele mesmo sintoma como o produto da transformação de uma quantidade de energia que de outra maneira teria sido empregada de alguma outra forma. 

Freud passou a sustentar que não era qualquer espécie de excitação emocional que estava em ação por trás dos fenômenos da neurose, mas habitualmente uma excitação de natureza sexual. Passou, então, a investigar a vida sexual dos chamados neurastênicos, que costumavam visitar-lhe em grande número durante suas horas de consulta. Essa experiência custou-lhe a popularidade como médico. Ele percebeu que em todos esses pacientes graves irregularidades da função sexual se encontravam presentes.

Breuer tentava explicar a divisão mental nos pacientes histéricos pela ausência de comunicação entre vários estados (estados de consciência) e construiu então, a teoria dos “estados hipnóides”. Freud encarava a divisão psíquica como efeito de um processo de repulsão, que na época ele denominou de “defesa” e depois de “repressão”. Com o tempo as duas teorias, “da defesa” e “hipnóide” se opuseram. Mas segundo Freud (1916) o que realmente causou o rompimento os dois foi a ênfase de Freud na significação da sexualidade na etiologia das neuroses. 

Durante os anos que se seguiram à publicação dos Estudos sobre Histeria, Freud leu alguns artigos sobre o papel da sexualidade na etiologia das neuroses perante várias sociedades médicas, mas só obteve incredulidade e contradição. Breuer tentou por algum tempo usar sua influência pessoal a favor de Freud, mas nada conseguiu. Sendo que Breuer não estava inclinado a reconhecer a etiologia sexual das neuroses.  Breuer abandonou Freud a própria sorte, mas também nunca usou sua autoridade como o terapeuta de Ana O para atacar Freud diretamente. E Freud (1935) relata que não entendeu esse silêncio de Breuer. Só depois, quando reviu o caso Ana O pôde entender a atitude de Breuer. Nesse momento ele “descobre” a transferência e a contratransferência. A paciente de Breuer desenvolvera uma condição de ‘amor transferencial’, Breuer não havia feito a ligação disso com sua doença e então se afastara desalentado.

A teoria do trauma

Freud acreditava que o conflito psíquico e sua conseqüência, a neurose era resultante de repressões impostas por traumas de sedução sexual que realmente teriam ocorrido no passado, e que retornavam sob a forma de sintomas. (Zimerman, 1999). 

Freud (1935) menciona que seus pacientes com freqüência reproduziam cenas nas quais eram seduzidos sexualmente por adultos; ele acreditava nessas historias e pensou ter descoberto as raízes da neurose subsequente nessas experiências de sedução sexual na infância. 

Freud tentava de forma coercitiva estimular os pacientes a recordar o trauma que havia sido esquecido e que tinha relação direta com os sintomas histéricos. 

Primeiramente para superar as resistências dos pacientes Freud se utilizou da sugestão, do estímulo e da insistência. No entanto esse método foi substituído por outro, onde em vez de incitar o paciente a dizer algo sobre algum assunto específico, solicitava que se entregasse a um processo de associação livre — isto é, que dissesse o que lhe viesse à mente, sem dar qualquer orientação consciente a seus pensamentos. 

A partir de 1896 Freud passa a empregar o método da associação livre, abandonando o método hipnótico, por considera-lo um meio artificial de neutralizar as resistências. 

Por volta de 1897, Freud se deu conta de que o trauma psíquico era insuficiente para explicar todos os sintomas neuróticos. Ele percebeu que suas pacientes não contavam sempre a verdade e que seus discursos estavam cheios de idéias fantasiosas. 

Os sintomas neuróticos não estavam diretamente relacionados com fatos reais, mas com fantasias impregnadas de desejos; e, como destaca Freud (1935), no tocante à neurose, a realidade psíquica era de maior importância que a realidade material. A sedução durante a infância retinha certa parcela, embora mais humilde, na etiologia das neuroses. Mas os sedutores vieram a ser, em geral, crianças mais velhas.

Freud com o tempo pôde concluir que tudo que tinha sido esquecido de alguma forma fora aflitivo; e que ao mesmo tempo havia algo no próprio individuo que tentava a todo custo não ser lembrado. Surgia a teoria da resistência e por conseguinte, a do recalque.
A teoria dos sonhos 

A teoria dos sonhos também veio trazer novas possibilidades para a psicanálise; abriu um caminho que conduzia muito longe, até as esferas do interesse universal. O sonho é de grande importância na psicanálise, porque não são manifestações patológicas como os sintomas, mas uma manifestação da vida mental normal que poderia ocorrer em qualquer pessoa sã. (Freud, 1935)

A Interpretação dos Sonhos (1900) marca a passagem para um modelo que investiga não apenas as manifestações psicopatológicas, mas capaz de dar conta do psiquismo em geral. No Capitulo VI da Interpretação dos Sonhos Freud formula o primeiro grande modelo do aparelho psíquico (a primeira tópica). O psiquismo é composto por dois grandes sistemas – inconsciente e pré-consciente/consciente – que são separados por uma barreira (a censura) que através do mecanismo do recalque expulsa e mantêm certas representaçoes inaceitáveis fora do sistema consciente. Mas essas representações exercem uma pressão para tornarem-se conscientes e ativas. 

Ocorre um jogo de forças, entre os conteúdos reprimidos e os mecanismos repressores. Como resultado desses conflitos há a produção das formações do inconsciente: os sintomas, sonhos, lapsos e chistes. Essas formações representam o fracasso e o sucesso das duas forças conflitantes e representam uma espécie de acordo entre elas.

Em 1905 veio a público os Três Ensaios para uma Teoria da Sexualidade. Esse texto situa a sexualidade como a base da vida psíquica. Loureiro (2005) diz que a psicanálise efetua uma verdadeira ruptura naquilo mesmo que era considerado sexualidade. Ao contrário dos discursos normativos da sexologia e da criminologia, que priorizavam a explicação dos desvios sexuais com base em teorias da hereditariedade e da degenerescência, a concepção psicanalítica da sexualidade embaralha as fronteiras entre normal/patológico, bem como prescinde da categoria de instinto sexual (impulso pré-formado, comum à espécie como um todo, dotado de objeto e finalidade fixos).  Freud usa o termo Trieb (impulso ou pulsão); pulsão não implica nem comportamento pré-formado, nem objeto específico. A pulsão demonstra a múltiplas, contingentes e mutantes feições que pode assumir a sexualidade humana.

O Fim do isolamento de Freud

Até 1906, Freud já havia lançado as bases fundamentais da psicanálise: a primeira tópica com a divisão do psiquismo em três instancias (consciente, pré-consciente e inconsciente); as fases psicossexuais da sexualidade infantil; Complexo de Édipo; os conceitos de transferência e contratransferência; a importância das resistências etc.

Por mais de dez anos após o seu afastamento de Breuer, Freud não teve seguidores. Ficou completamente isolado. Em Viena, foi evitado; no exterior, ninguém lhe deu atenção. A Interpretação de Sonhos Freud (1900), mal foi objeto de críticas nas publicações técnicas. 

Após 1906 seu isolamento gradativamente chegou ao fim. Para começar, um pequeno círculo de alunos reuniu-se em torno de Freud em Viena; depois chegou a notícia de que os psiquiatras de Zurique, E. Bleuler, seu assistente C. G. Jung e outros, estavam adquirindo vivo interesse pela psicanálise. Entraram em contato pessoal, e na Páscoa de 1908 reuniram-se em Salzburg, concordaram com a realização regular de outros congressos informais semelhantes e adotaram providências para a publicação de um órgão que foi organizado por Jung e que recebeu o título de Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschungen (Anuário de Pesquisas Psicanalíticas e Psicopatológicas). 

Veio a lume sob direção de Freud e Bleuler, deixando de ser publicado no início da Primeira Guerra Mundial. Ao mesmo tempo em que os psiquiatras suíços ingressavam no movimento, o interesse pela psicanálise começou também a ser despertado em toda a Alemanha, tornando-se tema de grande número de comentários escritos e de vivos debates em congressos científicos. Mas sua acolhida em parte alguma foi amistosa ou mesmo benevolentemente neutra. Segundo Freud (1935), após travar o mais leve conhecimento com a psicanálise, a ciência alemã estava coesa para rejeitá-la.

A partir de 1906 Freud e passou a reunir-se na sala de espera com um seleto grupo de brilhantes colaboradores: Abraham, Fereczi, Rank, Steckel, Sanchs, Jung, Adler. Eram as chamadas “Reuniões das Quartas-Férias”.


Entre 1914 e 1917 Freud produz seus “artigos metapsicológicos” que buscavam sintetizar o conhecimento teórico até então construído. Sobre o Narcisismo’ (1914) ‘As Pulsões e suas Vicissitudes’ (1915), ‘Repressão’ (1915), ‘O Inconsciente’ (1915), ‘Luto e Melancolia’ (1917) etc. vem fazer parte dessa tentativa de construção de uma Metapsicologia. Com isso Freud queria construir um método de abordagem de acordo com o qual todo processo mental é considerado em relação com três coordenadas, as quais descreveu como dinâmica, topográfica e econômica, respectivamente. 

Em sua Teoria Sobre o Narcisismo (1914) Freud atribui novas dimensões ao conceito de libido e, consequentemente, à psicanálise.O desenvolvimento do conceito de narcisismo coloca a prova o dualismo entre pulsões do ego (pulsões de autopreservação) e pulsões sexuais. 

Em Além do Princípio do Prazer (1920), Psicologia de Grupo e a Análise do Ego (1921c) e O Ego e o Id (1923), Freud considera uma nova solução para o problema das pulsões. Combinou as pulsões para a autopreservação e para a preservação da espécie sob o conceito de Eros e contrastou com ele um instinto de morte ou destruição que atua em silêncio. A pulsão, em geral, é considerada como uma espécie de elasticidade das coisas vivas, um impulso no sentido da restauração que outrora existiu, mas que foi conduzida a um fim por alguma perturbação externa. 

Esse caráter essencialmente conservador dos instintos é exemplificado pelos fenômenos da compulsão de repetição. O quadro que a vida nos apresenta é o resultado da ação simultânea e mutuamente oposta de Eros e do instinto de morte.

Em O Id e o Ego Freud (1923) entrega-se à tarefa de dissecar o aparelho mental, com base no ponto de vista analítico dos fatos patológicos, e o divide em um ego, um id e um superego. O superego é o herdeiro do complexo edipiano e representa os padrões éticos da humanidade.

Síndrome da Pressa


por Andreneide Dantas 
psicanalista

No Brasil três grandes centros de estudos fizeram pesquisas e chegaram á conclusão de que existe uma síndrome que engloba o estado de pressa que afeta a muitas pessoas.

Como o próprio nome já diz não se trata de uma doença e sim de uma síndrome. Que é um conjunto de sinais e sintomas associados a uma patologia. Nesse caso, se trata de uma série de efeitos que atinge um número grande de pessoas nos dias atuais, alterando o seu comportamento. 

Esse número chega a soma de 30% dos brasileiros, sendo que 65% te a tendência e no casos de executivos esse número sobe para 95%, segundo pesquisa feita pelos pesquisadores do Centro Psicológico de Controle do Stress da PUC Campinas. Estudos semelhantes também foram comprovados por outras instituições e universidades.

A alteração desse comportamento tem efeitos tanto físicos quanto psicológicos, e se apresenta de uma forma facilmente observável, pois faz com que as pessoas andem exageradamente apressadas, tensas, façam várias atividades ao “mesmo tempo” e  apresentem hostilidade e intolerância frente a outras pessoas que mantêm outro ritmo, chamados por eles de “lentos”. 

Esse ritmo acelerado dá a sensação de que essas pessoas não têm tempo a “a perder“ e afeta o sono, a memória, enfim,  a saúde desses indivíduos.

É importante lembrar que não é o mesmo que o stress, mas pode ser confundido com o mesmo em estágio avançado. Segundo o Isma-Br, 70% dos brasileiros economicamente ativos sofrem de stress e 60% das doenças são determinadas pelo stress e pelo ritmo de vida.

Portanto, uma situação de stress é importante para o ser humano, que é chamado stress fisiológico, já que é quando o sujeito sofre reações físicas e psicológicas diante de situações específicas. 

Mas, nesse caso, da síndrome da pressa, não se trata de uma situação específica e nem de um momento de vida e sim de um comportamento de alerta e de pressa que faz com que esses sujeitos corram, andem apressados, mesmo quando não precisam.

É fato que existem profissões onde a pressa é característica fundamental e, portanto importante que ela exista, como no caso dos bombeiros. Outras vezes é o momento específico da vida de cada um que exige que nos apressemos. Porém esse comportamento não pode ser generalizado.

Nos consultórios, recebemos pacientes que estão afetados por uma ansiedade intensa, e a ansiedade é um dos sintomas, talvez o maior responsável pelo acometimento da Síndrome da Pressa. 

Na clinica psicanalítica, entendemos que outros sintomas ou outras estruturas emocionais podem contribuir para que as pessoas desencadeiem comportamentos característicos de quem tem essa síndrome. 

Fazendo uma leitura dos tempos atuais, podemos pensar que o ritmo acelerado das cidades grandes e a alta quantidade de afazeres e compromissos, contribuem para que as pessoas andem cada vez mais apressadas. 

Um outro dado é que as exigências do mercado de trabalho para que o trabalhador fique muitas horas do seu dia produzindo, também podem contribuir. Mas não podemos esquecer que nem todos que trabalham nessas empresas sofrem desse mal.

Então o que acontece com essas pessoas que são diagnosticadas com síndrome da pressa? Porque será que elas, mesmo quando não precisam fazer suas atividades com pressa, o fazem? A ponto de não descansarem nos finais de semana e nas horas de folga? De acordo com esses estudos elas sofrem da Síndrome da pressa. 

Mas o que será que difere uma das outras? Porque uns sofrem e outros não? Aqui entra a subjetividade de cada um, o ambiente, a família e o inconsciente delas com seu determinismo. E o equívoco de acreditarem que conseguirão fazer tudo, acreditando que não existem limites para seus atos e para seu corpo.

Tanto que a pessoa que tem a Síndrome da pressa tem sua saúde emocional e física, afetada, por conta disso aumenta o risco de infarto, gastrites, úlceras, aumento de pressão, dores musculares (já que não relaxam) e distúrbios do sono.

Podemos nos perguntar o que essas pessoas estão fazendo com suas vidas, com seu tempo! É sabido que o tempo é inerente ao sujeito, interessa a todo ser, já que ele passa e deixa suas marcas, ele também é objeto de estudo de vários discursos, desde a Física, Filosofia, e Psicologia.

O interessante é avaliarmos como o tempo físico e o psicológico, juntos, afetam o cotidiano das pessoas, principalmente das que vivem nos grandes centros. 

Claro, que não é só nesses lugares que o tempo real sofre a influência do social, mas diante de agendas tão extensas, a sensação é de que faltam algumas horas do dia para fazer tantas coisas. 

E esse comportamento já se inicia na infância, pois encontramos crianças muito pequenas que já têm uma agenda que parece a de um adulto, com muitos afazeres.

Verificamos que para aquele que não tem tantas atividades o tempo tem outra influência... Ou para aqueles que sofrem de depressão o tempo “passa” de outra forma.. não existindo essa pressão-pressa.

Para a Psicanálise cada sujeito sofre de forma diferente a ação do tempo, alguns não contam com sua passagem, outros “param no tempo”. Para o inconsciente o tempo não passa, pois ele não reconhece essa passagem, por esse motivo um fato ocorrido na infância pode ser sentido na vida adulta do sujeito, como se não tivesse passado nem um dia, pois a carga de emoção é a mesma. Mas, mesmo que o inconsciente não reconheça a passagem do tempo o psiquismo é afetado.

A análise possibilita que o sujeito possa relembrar o tempo passado de sua infância e assim tenha a possibilidade de elaborar o que sente em relação ao ocorrido, que faça seu luto de sua infância ”perdida” para que assim possa viver o agora de uma forma melhor.

É importante que cada um se conscientize do que está fazendo, se pergunte se precisa mesmo correr para fazer suas atividades. E o que essas pesquisas nos alertam é para que possamos nos perguntar o que estamos fazendo com o nosso tempo?

Podemos viver bem e contar com ele aproveitando-o, ou nos sentindo sendo devorados por ele.

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